A Sobrevivência em Parcelas

 

A Sobrevivência em Parcelas


Por Vitor Santos


Caminhar pelo bairro em uma tarde de terça-feira é ler um livro que não está nas bibliotecas. Nas filas dos postos de saúde, o assunto não é a geopolítica, mas a ausência daquela caixinha branca, de tarja vermelha, que mantém o coração no ritmo ou a dor sob controle. "Não tem", diz a voz do outro lado do guichê. E nessa resposta curta, cabe um abismo de desamparo. O remédio que falta aqui, sobra em generosidade diplomática para além-mar. É a ironia do "pai de todos" que esquece dos filhos de casa.

No supermercado, a cena se repete como um ritual de sobrevivência. O carrinho, antes cheio, hoje carrega apenas o essencial, o básico, o "dá para hoje". No caixa, o gesto é quase automático: o cartão de plástico estendido como um escudo. "Em quantas vezes?", pergunta a operadora. "No máximo que puder", responde o pai de família.

Ali, naquele pedaço de plástico, mora o milagre e a tragédia brasileira de 2026. O pão, o leite e o arroz — itens que deveriam ter a fugacidade de um café da manhã — ganham uma sobrevida de meses na fatura. O brasileiro aprendeu a fatiar o presente para não encarar o futuro. Compra-se o jantar hoje para pagá-lo quando a fome já será outra, sob o peso de juros que lembram os tempos da agiotagem, agora institucionalizada em 500% ao ano. O cartão é o "salvador" que cobra o preço da alma em cada parcela.

E enquanto o povo faz malabarismos com o orçamento, o discurso público tenta nos convencer de que precisamos de curadores. Dizem que o cidadão — esse mesmo que consegue a proeza matemática de alimentar cinco bocas com um salário mínimo e um cartão estourado — não tem discernimento para ouvir verdades e mentiras no debate político. Querem nos tutelar o voto como se fôssemos crianças, ignorando que quem sobrevive ao rotativo do cartão de crédito já possui um doutorado em realidade que nenhum tribunal pode ensinar.

Vivemos sob o signo da autonomia minguante. De um lado, a asfixia do bolso; do outro, a castração do pensamento. O brasileiro tornou-se um equilibrista: equilibra o boleto vencido com a esperança de que, na próxima ida ao posto, o remédio tenha chegado.

Dizem que, a curto prazo, não há solução. Talvez não haja para os números. Mas para quem observa, a solução começa em não aceitar o silêncio. Se a autonomia nos é tirada na marra — seja pelo preço do feijão ou pela canetada do juiz —, a nossa última trincheira é a palavra. O Sentinela continua no posto, observando o pão sendo fatiado em três vezes, e escrevendo para que o esquecimento não seja a próxima conta a vencer.


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